03 de Abril de 2025

Bahia supera média nacional em número de processos por uso de drogas

Mesmo antes da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a despenalização do porte de maconha que aconteceu em junho deste ano, o assunto já era pauta jurídica. Na Bahia, o número de processos na Justiça relacionados à posse de drogas para consumo pessoal cresceu 46,3% entre 2022 e 2023. O volume de novos processos no estado foi de 1.775 para 2.597, aumento acima do índice nacional, que teve crescimento de 130.034 para 146.228, um aumento total de 12,45%, no mesmo período. A expectativa é de que após a decisão do STF os números devem seguir em crescimento.

O combate às drogas através da atuação policial e o crescimento do tráfico de drogas são dois fatores apontados para explicar os dados do DataJud - painel de estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) - no estado. “A Bahia tem concentrado grandes esforços no combate às drogas ilícitas pela atuação policial. Isso resulta em mais processos criminais, para além da maior transparência dos dados sobre tal conduta”, explica o professor de processo e prática penal da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Misael França.

De janeiro a abril deste ano somam 974 processos novos no estado; no mesmo período os números do Brasil foram 44.228 novos processos. Para fins de comparação, os registros relacionados apenas à posse de drogas são o 7º tema penal no Brasil com o maior número de novos processos em 2023. A criminalista pós-graduada em prática penal e direito penal econômico Vanessa Avellar reforça que o dado não é uma discussão só da Bahia. “É uma questão que envolve o Brasil inteiro. Porque tem crescido o número de processos com relação não somente à posse para consumo pessoal, mas também a questão da própria traficância”, argumenta.

Usuário ou traficante

Diferenciar o usuário de drogas e o traficante é uma questão mal solucionada pela lei 11.343 de 2006 - a lei de drogas - e também pelos registros processuais do CNJ que tratam do assunto, que são o código 5885 “Posse de Drogas para Consumo Pessoal" e o 11.207 “Tráfico, posse ou uso de entorpecente ou substância de efeito similar", segundo Fernanda Ravazzano que preside a Comissão de Ciências Criminais da Ordem dos Advogados do Brasil - Bahia (OAB-BA). E mesmo a decisão do STF foi incapaz de definir um critério objetivo para a diferenciar a posse do tráfico.

“Há uma dificuldade em fazer essa diferenciação e termina que o primeiro filtro pra dizer se você é usuário ou traficante é o próprio delegado, que vai analisar a prisão daquele sujeito. Um segundo filtro é o Ministério Público e o terceiro é o juiz, que é quem vai decidir se procede ou não aquela acusação”, afirma a advogada criminalista.

O critério estabelecido pelo STF é o de que até 40 gramas ou seis plantas fêmeas de cannabis caracterizam porte pessoal. Porém, mesmo com menos de 40 gramas o sujeito ainda pode ser preso por tráfico de drogas quando haja indícios de comercialização, que é um aspecto subjetivo questionado pela advogada.

“A própria decisão do Supremo deixou ali o critério subjetivo que é essa abertura de interpretação ainda para o delegado, para o promotor e, no final das contas, para o juiz”, conta Fernanda. Balança para pesar o entorpecente, armas, volume de dinheiro e o local da apreensão da maconha podem servir para configurar tráfico.

“Esse é o grande problema. Você vai olhar as sentenças penais condenatórias e elas apontam que fulano foi preso encontrado com ‘x’ de droga em local conhecido pela traficância. Mas a gente percebe que esse critério é classista e racista. Um menino no Farol da Barra e um no Bairro da Paz com a mesma droga, sem balança de precisão, sem o volume de dinheiro, vão ter tratamentos diferentes. São os mesmos problemas que a gente já lidava quando falava sobre política de drogas ”, reforça Fernanda Ravazzano. Ela reforça que a tendência é que o número de processos de posse de drogas para uso pessoal siga em crescimento, mas é preciso aguardar para fazer esse parecer.

 

Informações do Jornal A Tarde / Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Whatsapp

Ultimas notícias

Galeria

Bahia Farm Show apresenta exposição fotográfica sobre as belezas do Oeste da Bahia
Exposição aproximará startups agrícolas de investidores privados
Ver todas as galerias

Artigos