20 de Junho de 2024

A liberdade de expressão do tolo é também a liberdade de expressão do sábio

A única forma de se vencer o extremismo, seja ele com cara de demônio ou de pônei com glitter, é construindo uma resiliência psicológica e moral nos indivíduos. Certa vez, um aluno me questionou o porquê, num país como os Estados Unidos, que tolera até mesmo discursos abertamente neonazistas, não há nenhum resquício de advento de uma ditadura aos moldes do Leste Europeu do século passado. Minha resposta foi exatamente esta: o norte-americano, pela constituição de suas ideias fundamentais e gênese histórica de sua nação, aprendeu a repudiar ideias que atentam contra a liberdade individual e dignidade humana, construindo uma barreira moral e jurídica contra tiranias. A população, nas suas mais variadas camadas de erudição, poderio econômico e crença religiosa, compreende e defende o princípio comum da liberdade de crença e expressão e da irrevogabilidade da dignidade do homem.

Citei então a história de Aryeh Neier. Em 1978, o líder neonazista norte-americano Frank Collin, com a ajuda improvável de um judeu refugiado, Aryeh Neier, após a proibição de um juiz de primeira instância, pediu a autorização do Estado para que sua manifestação nazista ocorresse ? inclusive com a suástica e tudo mais ? numa cidade norte-americana, Skokie (Illinois) ? cidade que, na época, abrigava uma enorme comunidade de judeus refugiados do nazismo hitlerista.

Aryeh Neier fugiu da Alemanha nazista ainda bebê, com os seus pais. Num primeiro momento, eles foram para o Reino Unido e, depois, para os EUA; a maioria de seus familiares morreram nos campos de concentração de Hitler. É quase inimaginável para nós que um judeu, que perdeu quase tudo para o nazismo, escolhesse defender o partido nazista norte-americano, mas foi o que fez Neier ? líder representante, na época, do American Civil Liberties Union (ACLU). Em seu livro Defending My Enemy: American Nazis, The Skokie Case, and the Risks of Freedom (Defendendo Meu Inimigo: Nazistas Norte-Americanos em Skokie, e os Riscos da Liberdade), ele faz, para mim, a mais arrojada e emocionante defesa da liberdade de expressão, uma das demonstrações mais absurdas de maturidade emocional e intelectual que pessoalmente vi ser relatado. Para Neier, em defesa da Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão irrestrita nos Estados Unidos, e pela liberdade do povo americano em si mesma, só era possível enxergar a verdade do que foi o nazismo se deixássemos que os próprios nazistas falassem e se expressassem. E, de fato, Frank Collin era essa sopa de ódio e discurso político golpista de enojar quaisquer pessoas sãs. Mas, para Aryeh, que defendeu e garantiu a liberdade da passeata nazista em Illinois, somente sob uma real igualdade de condições para a plena liberdade de se expressar sem ressalvas, seria possível ver a olhos nus a verdade da maldade dos nossos inimigos.

E vejam, isso não se trata de um mero “rasgar de seda” para o Tio Sam e sua Primeira Emenda. Trata-se de reconhecer um modelo de valor social que funciona, à medida que prepara educacionalmente os indivíduos para a realidade, para seus discursos diversos e ideais problemáticas. O famoso “espírito americano”, que eles soberbamente apontam a todos sempre que podem, é justamente isso: a resiliência psicológica com os tolos, os extremistas, pois a liberdade deles poderem dizer asneiras é a mesma dos sãos para expressarem valores imprescindíveis. 

O resguardo jurídico mantém o princípio da liberdade irrestrita de ideias nos EUA, pois confia que a população é plenamente capaz e educada para bem julgar o que é uma ideia de fundo ditatorial e aquilo que é meramente uma vertente política diversa. E foi justamente o que aconteceu com o Partido Nazista americano após a passeata de Frank Collin, ele voltou para os porões e pântanos do debate público daquele país, acossado não pelo punho policial do Estado ou quaisquer agências reguladoras de discursos sociais, mas pela compreensão madura da sociedade norte-americana sobre o que o nazismo era de fato: uma ideologia assassina e abjeta. 

Aryeh Neier, ao afogar seus justos e incensuráveis rancores com o nazismo, a fim de defender aquele valor que fazia da democracia norte-americana uma plataforma social superior ao nazismo, acabou por matar moralmente o Partido Nazista naquele país; enterrou de forma brutal, através da maturidade psicológica e jurídica, quaisquer apreços populares que poderiam restar ao americano comum ante o nazismo. Isto mesmo, o judeu que defendeu o direito de livre manifestação dos nazistas norte-americanos, mostrou de forma irrevogável porque o modelo liberal era infinitamente melhor e dignificante do que o proposto por Adolf Hitler. Eis a maturidade social e política de um país trucidando verdadeiramente o ideário nazista.

Ainda não conseguimos alcançar tal maturidade psicológica em nossa nação, é verdade; no comum inconveniente de uma opinião diversa, queremos logo que o Estado cale o mensageiro da heresia “lesa-ego”. Aqui, ao contrário do que os norte-americanos perceberam há mais de 200 anos, não entendemos ainda que a liberdade de expressão do tolo é também a liberdade de expressão do sábio, que não se cala um sem atingir o outro. Lembro-me que, após a aula, muitos alunos convencidos de nossa mente infantilizada, me perguntaram como criar tal cultura de resiliência psicológica no país. A única resposta possível, eu disse, era combater a tirania psicológica do progressismo ao mesmo tempo que se trabalha em nós a tolerância ao que é diverso; o Ocidente evoluiu a tal ponto que, mesmo diante de ditaduras sanguinárias ? quiçá, demoníacas ?, conseguiu se reerguer através dos mesmos e antigos valores de liberdade individual e maturidade psicológica.

O que assistimos hoje é um retorno, com belas retóricas, pompas jurídicas e desejos altruístas, ao modelo ideário fascista e comunista de sociedade, onde um grupo de ditadores permite ou não determinadas ideias e discursos sob a mesmíssima e assustadora desculpa de “defesa da sociedade” ou “da democracia”. Não perceber esse monstro através do véu do progressismo trata-se de uma espécie de burrice arrematada com uma porção generosa de ingenuidade histórica; o mundo não estará melhor quando o Estado prender todos aqueles que ele julga fazer “discursos de ódio”, a sociedade estará melhor quando, pela maturidade psicológica de seus indivíduos, ideias como nazismo, comunismo e fascismo forem naturalmente enterrados pela maioria, que, convencida de seus males intrínsecos, recusará desde o berço retórico a possibilidade de sua viabilidade. 

Por que os Estados Unidos permitem seus punhados de neonazistas? Porque com maturidade psicológica, educação liberal e valores corretos enraizados, tais extremistas jamais deixarão de ser tais punhados isolados, controlados naturalmente pela sanidade da maioria. Para deixarmos de ser esses eternos bebês raivosos que pedem a justiça do pai Estado sempre que o amiguinho nos magoa, uma mistura de ecologistas terroristas, Madres Tereza de Twitter e Stalins de apartamento, temos antes que amadurecer nossa percepção de mundo, contrabalancear uma ordem moral interna a uma resiliência social ante o outro e suas ideias de mundo. Caso contrário, jamais conheceremos a revigorante sensação de ser livre e responsável ao mesmo tempo. Se delegamos a instituições de Estado a tarefa de nos dizer quais informações são confiáveis, quais discursos são sanitariamente seguros e quais indivíduos podem ou não ferir as cutículas de nossos egos, então ainda estamos longe de qualquer maturidade digna de nota. 

Para sermos livres, verdadeiramente, devemos antes estar dispostos a crescer psíquica e moralmente, abandonar o calço do Estado e das ideologias, a fim de tomar os controles de nossos deveres e direito ? assumindo o ônus e o bônus dessa tarefa. Para ser um escravo ideológico, basta repetir o que o senhor do engenho político diz e fazer o que ele manda. Todavia, estou cada vez mais convencido que para ser realmente livre é necessário uma mistura de brio, maturidade e resiliência, pois liberdade, meus caros, é para todos, mas os moleques jamais compreenderão a sua real indispensabilidade e importância.

 

Por Pedro Henrique Alves, Jovem Pan

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